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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Anjo Assassino

Início de noite, o ônibus percorria pela BR-116 no estado do Paraná em direção à Santa Catarina. Eu pensava no Augusto, nossa relação esfriara desde o dia em que encontrei a cocaína em seu bolso. Conversamos dias depois do ocorrido. Ele admitiu que ganhava uma boa grana revendendo para seus parceiros de balada. Disse que era só para tirarem um barato, ele não era traficante. Ele era sim, só que não queria se ver como tal.
Não foi o motivo principal do declínio do meu entusiasmo por ele; o novo Augusto que passei a enxergar não me atraía tanto quanto o do início.
Não houve despedida entre nós, era até bom, pois com certeza a polícia iria querer ouví-lo e pareceria que sumi contra a minha vontade.


O Edgar foi preso, ele era o principal suspeito de ter assassinado a pessoa encontrada carbonizada em seu carro. O grau de carbonização, somado a ausência das partes mutiladas, impediram a identificação do corpo.
Outro agravante contra o homem: centrais telefônicas da região confirmaram que os celulares da Giulia e da Daisy estiveram conectados ao wi-fi da casa dele até 1h08 da madrugada de sábado. Ambos perderam o sinal ao mesmo tempo e não houve mais registros. Os aparelhos não foram localizados.
Além disso foram encontrados vestígios de sangue na residência. Após a perícia complicaria ainda mais a vida do homem.


Despertei dos meus pensamentos ao ouvir que o ônibus clandestino voltou a apresentar problemas. Rodamos somente alguns quilômetros depois que deixamos a cidade de Piraquara. Faríamos uma nova parada em um fim de mundo, pois a lata velha havia quebrado de vez. Nós, passageiros, teríamos que permanecer no local até o dia seguinte, era quando chegariam as peças necessárias para efetuar o conserto do busão.


Enquanto Daizy caminhava pela pequena praça do vilarejo, ela foi abordada por um jovem casal no interior de um Santana que mal dava para ver a cor de tão empoeirado que estava. Eles vinham em sentido contrário, à caminho de São Paulo. Estavam de passagem pela cidade e pensaram que ela fosse moradora do local. Perguntaram onde poderiam comer e beber algo e se havia alguma diversão naquele lugar.
Depois que Daisy explicou que também estava de passagem, disse que havia visto um lugar legal a uns 500 metros atrás. O trio sorri e fazem o mesmo comentário: “se não fossem os cabelos, todos diriam que as duas garotas são gêmeas.”
A semelhança entre elas era impressionante. A jovem de cabelo curto e negro se apresenta como Jessie e o rapaz como James. Ela 20 anos, ele 24.
O trio se dirigiu ao “lugar legal” mencionado por Daisy, uma parada de caminhoneiros e viajantes. Lá eles comem, bebem, conversam banalidades e desconversam quando a pergunta é mais íntima. Ninguém quer revelar detalhes relevantes de sua origem. O casal diz que é do interior de São Paulo, estão a dois anos na estrada vivendo como ciganos. Ninguém chorou quando partiram e tão pouco alguém deseja ou espere que voltem.
Daisy revela que saiu do Nordeste (sem especificar o local) e veio para o Sudeste em busca de trabalho e de melhores oportunidades.
Os três jovens têm algo a esconder: más intenções e interesses distintos. A conversa amigável se assemelha a um jogo de poker em que você paga pra ver caso presuma que está de posse das melhores cartas.
O casal de relação aberta assedia a jovem que cede sem muita resistência. O trio encaminhou-se até uma represa próxima que mais parecia uma praia deserta. A intenção era a de praticarem um ménage à trois.


Já as margens da represa, longe dos olhares incriminatórios, a Jessie me abraçou dizendo que estava morrendo de tesão por mim. Me beijou sem a menor cerimônia. Nós três estávamos ligeiramente embriagados e com a libido a mil. As preliminares avançam com o cara me despindo o tronco, roçou seu tórax nu em minhas costas também nuas, massageou e amassou carinhosamente os meus peitos. James puxou meu rosto para o lado, descolei meus lábios dos da jessie para beijá-lo.
Após devorar minha língua ele desceu até meu seio e o sugou como se estivesse faminto. Nesse meio tempo eu já estava pelada, pois a Jessie havia me despido inteirinha e se enfiou entre minhas pernas. A garota me ganhou de vez ao brincar com meu sexo em sua boca.
Tudo acontecia rápido demais e eles trabalhavam em conjunto como se houvessem ensaiado ou praticado o lance várias vezes. Desde o bar eu desconfiei daqueles dois, suspeitava que poderia estar caindo em um golpe, mas eles tinham algo que me interessava muito, então resolvi correr o risco e entrar nesse jogo perigoso.
O cara me deitou na areia e ajoelhou me deixando entre suas pernas para que eu recebesse seu pau garganta a dentro. Fiquei receosa e com raiva de mim mesma; deixei que me colocassem indefesa estendida embaixo dele. Contudo, a posição de submissão teve o seu lado bom, a garota abriu minhas pernas as levantando e teria arrancado meus gritos de tesão com sua chupada caso eu não estivesse de boca cheia fazendo um boquete no James.
O momento a seguir foi de dúvida e hesitação, ele veio de pau em riste pronto para me possuir… E sem preservativo. Eu estava morrendo de tesão e doida para transar gostoso com ele. Em outra situação eu teria dado um foda-se e me entregado, porém havia algo mais em jogo, não era somente sexo.
Demonstrei receio e disse que gostaria de assistir os dois se pegando primeiro, pois ainda não estava completamente à vontade com aquela novidade única em minha vida. Eles se olharam — sabe aquele instante de percepção que você consegue até ler pensamentos? — foi o que aconteceu comigo, sabia que estavam se comunicando por código. Eu tinha que tomar uma decisão rápida executando o meu plano, antes que fosse tarde demais e me transformasse em vítima.
Falei que ia procurar uma camisinha na minha mochila. Enquanto isso ele deitou sobre ela, percebi que a penetrou, pois o gemido profundo da garota refletiu em mim como se fosse eu a penetrada.


Nos minutos seguintes o casal se amou intensamente como se o fizessem pela última vez.


***


Acordei horas mais tarde ouvindo a cantoria dos pássaros, começava a raiar o dia. Estava deitada na relva, um pouco mais acima de onde aconteceu nossa transa. Estava sozinha no lugar deserto, exausta, nua e toda suja. Olhei assustada procurando as minhas coisas e fiquei aliviada vendo que tudo ainda estava como deixei. Tomei um banho na represa de água fria antes de me vestir e voltar para o ônibus. Fiquei preocupada que antecipassem o conserto e o motorista saísse antes que eu chegasse.
Já era dia de sol quando cheguei e pedi minha mala para o responsável pelo transporte, a maior parte dos meus 600 mil dólares estavam guardados dentro dela. Depois caminhei alguns quarteirões e peguei o Santana onde deixara estacionado. Acelerei estrada a fora.


Ao passar pela “prainha deserta” Daisy acenou dando um tchau, um muito obrigado e sorriu com frieza. Foi no mesmo local onde ocorreu a orgia da noite anterior que ela sepultou os corpos do casal Jessie e James.
Os dois jovens haviam rodado por quase todo o país nos últimos dois anos. Viviam um dia após o outro com o fruto dos pequenos golpes que aplicavam. A tática era atrair homens e mulheres para diversão sexual a três ou a quatro para depois roubá-los e fugirem para outra cidade. Quando o dinheiro acabava após farras e noitadas, eles partiam atrás de uma nova vítima. No entanto, dessa vez os caçadores é que seriam a caça. Enquanto estavam com os corpos colados ao chegarem ao momento mágico daquela transa, Jessie teve um orgasmo múltiplo ao ouvir o urro demoníaco do seu parceiro. Ela imaginou que a manifestação fosse de tesão quando ele deu seu último gemido de dor ao sentir a lâmina de uma faca atravessando o seu coração. Isso a fez gemer e remexer ainda mais com a intensidade do seu clímax.
Jessie estava de olhos cerrados quando sentiu o primeiro golpe em seu pescoço. Horrorizada abriu os olhos e viu a sua algoz a golpeando mais uma, duas, três vez.
O momento mágico, último na vida do casal, se transformou em momento trágico.
Os dois corpos foram enterrados juntos onde a vegetação mantém os transeuntes afastados do local e da cova.


Enquanto isso em São Paulo, o investigador Freitas havia sido designado para o caso do corpo carbonizado. Durante a investigação na casa do Edgar foram recuperados dados apagados do HD do seu Laptop. O policial fez uma expressão de questionamento ao visualizar o material, havia várias fotos e pequenos vídeos da Daisy. Na maioria deles ela estava nua ou em trajes menores. Aparentemente foi o patrão Edgar quem registrou as cenas produzidas em sua residência, na casa de praia em Maresias e também na casa da garota. Em quase todas as imagens ela está contrariada; esconde o rosto, mostra o dedo e ameaça jogar objetos.
Em um vídeo a jovem está na cozinha de sua casa mexendo em uma panela no fogão. Suas nádegas e restante da retaguarda estão descobertas, pois ela veste somente um aventalzinho que cobre parcialmente suas partes frontais. Ela se vira Irritada e ordena que ele pare de filmá-la.

O policial conjectura que a irritação, na verdade, seja um jogo de provocação e sedução que a menina astuta faz com o homem, ou com os homens. Ele pensou na cena da última vez em que esteve na casa da garota para pegar informações do caso Luana. Era quase meio-dia de uma segunda-feira e ela estava com este mesmo pequeno avental do vídeo quando o atendeu após suas batidas na porta:
— Já vai, Léo, um minuto.
Ela escancarou a porta. Estava com um sorriso largo no rosto e ajeitando os cabelos, porém sua expressão ficou séria ao me ver e fechou um pouco a porta ficando com o corpo parcialmente coberto.
— Desculpe-me por não ser o Léo.
— Magina, não tem de quê — pensei que fosse um dos rapazes que está trabalhando na casa debaixo, ele à pouco disse que vinha pegar o almoço.
“Essa malandrinha se justifica demais para quem não tem nada a esconder.” Pensou o homem e, não, o investigador.
— Eu estava passando e aproveitei para lhe fazer mais umas perguntas… O celular dele tocou e era urgente, tinha que ir para uma cena de crime. Disse para a Daisy que a procuraria outro dia.


“Só hoje me dei conta de que não vi nada mais em seu corpo além do aventalzinho que cobria seios e quadris. Ela provavelmente estava com a bundinha de fora e o felizardo do pedreiro é quem se deliciou com a cena da menina exibida. Droga de telefone, não poderia ter esperado quinze minutos antes de tocar?” Lamentou-se o policial em pensamento.


Freitas continuou examinando os vídeos. No próximo ela aparentava embriaguez, contudo estava calma e amorosa dessa vez. Cheia de malícia e com gestos de sensualidade diz que faria um strip-tease e masturbaria a si e a ele também. Permitiria que a filmasse, porém queria parte do pé de meia dele. Ela fez sinal de aspas com as mãos ao dizer “pé de meia”, sem largar o copo de vinho. O vídeo é pausado e quando continua Daisy está caminhando rápido em direção à pia. Está completamente nua novamente e desta vez parecia ser real a sua fúria. A moça pegou uma faca de cozinha e o ameaçou:
— Para caralho! Você sabe do que sou capaz, faço o mesmo com você se continuar me emputecendo — o homem a chama de boca suja e encerra o vídeo.
Freitas balança negativamente a cabeça, sorri e se recusa a acreditar na teoria que acabara de formular: que aquele anjo sedutor não fosse uma vítima e, sim, uma assassina fria e calculista.


Horas mais tarde, em uma cidade no estado de Santa Catarina, Daisy se admirava no espelho de uma pousada. Ela cortou seus cabelos longos e castanhos e os tingiu de negro. Comparou com a foto da identidade da Jessie e sorriu satisfeita. A jovem criminosa ganhou um visual diferente e documentos coerentes com a nova aparência. Possuindo dinheiro suficiente para não precisar trabalhar por anos, ela só se preocuparia em não ser presa e continuaria com as suas vilanias.
Fim

"Quero agradecer a todos que tornaram esta obra possível, especialmente ao meu amigo Caio Renato Gadelha que disponibilizou seu tempo me ajudando com a minha dificuldade em desenvolver cenas de crime. Também foi fundamental na construção do perfil criminoso da minha protagonista (Daisy)."

Agradeço a atenção e carinho de todos. Nos veremos em breve com uma nova história.

 

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